Serão as pessoas com esquizofrenia o “bicho-papão” que a sociedade nos faz acreditar? Seres monstruosos, assustadores com um lado sombrio que deve ser temido? Ou serão pessoas com sonhos, medos e desafios, que enfrentam batalhas invisíveis, muitas vezes mal compreendidas pela sociedade?
O que é a esquizofrenia, afinal?
A esquizofrenia é uma doença mental crónica que afeta como uma pessoa pensa, sente e se comporta. É, principalmente, caracterizada pela dificuldade em distinguir o que é real do que é imaginário, sendo recorrente alucinações, delírios e alterações no pensamento e comportamento.
Quais os sintomas predominantes na esquizofrenia?
Os sintomas desta condição são diversos e podem variar de pessoa para pessoa. Por um lado, temos os sintomas ditos “positivos”, que incluem alucinações e delírios.
As alucinações são perceções falsas ou distorcidas, sem estímulos externos. As visuais envolvem ver imagens ou objetos inexistentes, enquanto as auditivas consistem em ouvir sons, como vozes, sem que haja fonte sonora real.
Os delírios são crenças falsas e persistentes, como achar que alguém nos está a tentar prejudicar. Além disso, o pensamento pode tornar-se desorganizado, fazendo com que a pessoa tenha dificuldades em comunicar de forma clara e coerente.
Por outro lado, temos os sintomas “negativos” que envolvem uma diminuição de certos comportamentos ou capacidades. Por exemplo, a pessoa pode perder o interesse por atividades que antes eram prazerosas, sentir dificuldade em experimentar emoções positivas e/ou isolamento social.
Importa, também, salientar os sintomas cognitivos que afetam a memória, a atenção e a capacidade de tomar decisões. As dificuldades de concentração, de recordação de informações recentes ou em organizar as tarefas do quotidiano são alguns exemplos destes sintomas, que podem prejudicar a funcionalidade da pessoa, afetando a sua capacidade de viver de forma independente e autónoma.
Mas qual é a causa da esquizofrenia?
Embora a causa exata da esquizofrenia não seja ainda totalmente compreendida, acredita-se que fatores genéticos, desequilíbrios químicos no cérebro, como a dopamina e a serotonina, e influências ambientais desempenham um papel importante no desenvolvimento da condição.
Há tratamento para a esquizofrenia?
O estigma que ronda a esquizofrenia cria uma imagem distorcida da realidade. Imaginamos que quem lida com esta condição seja intratável. No entanto, a esquizofrenia, tal como as doenças físicas, é tratável. O seu tratamento envolve, geralmente, uma combinação de fármacos, terapia e suporte social, sendo o principal objetivo controlar os sintomas, com o intuito de permitir que a pessoa tenha uma vida mais equilibrada e autónoma possível. O tratamento deve ser personalizado e ajustado às dificuldades e necessidades apresentadas.
Todas as pessoas com esquizofrenia são institucionalizadas?
Embora a esquizofrenia, especialmente em casos mais graves, seja frequentemente associada a limitações e à ideia de que a pessoa precisará de cuidados constantes ou até mesmo de institucionalização, a realidade é bem diferente. Muitas pessoas com esquizofrenia conseguem viver de forma funcional e autónoma, desde que tenham um acompanhamento adequado e o suporte necessário para tal.
Em muitos casos, pessoas com esquizofrenia vivem nas suas próprias casas, têm um emprego e mantêm relações saudáveis, sem necessidade de internamento. A base para essa autonomia está no acompanhamento contínuo e personalizado, como sessões de terapia, acompanhamento médico, uso de fármacos e suporte social.
Embora não existam dados concretos sobre a percentagem de pessoas institucionalizadas em Portugal, a tendência global tem sido de redução da institucionalização, com um foco crescente em tratamentos comunitários e reabilitação psicossocial. Em Portugal, os serviços de saúde mental têm priorizado este modelo, com programas de apoio que promovem a autonomia, a inclusão social e a integração na comunidade.
Quando é que existe necessidade de institucionalização?
Como vimos anteriormente, a institucionalização não é uma regra. Ela pode ser necessária em situações muito específicas, como em momentos de crises agudas ou em casos em que a supervisão e cuidados médicos não consigam ser assegurados em casa.
A institucionalização não deve ser encarada como uma perda, mas como uma fase do processo de apoio.
Que desafios enfrentam as pessoas institucionalizadas?
Pessoas institucionalizadas enfrentam, frequentemente, enormes desafios. Num ambiente institucional, é crucial que os seus direitos sejam mantidos. Pessoas com esquizofrenia continuam a ser seres humanos com sentimentos, aspirações e capacidade de contribuir para a sociedade, ainda que de maneira diferente.
Se as pessoas tivessem a oportunidade de conhecer as instituições de saúde mental, ficariam surpresas ao perceber o potencial, capaz de desafiar estereótipos, que algumas pessoas com esquizofrenia possuem. Além disso, as experiências de vida que acumulam, muitas vezes, marcadas por desafios profundos, oferecem lições valiosas de resiliência, adaptação e superação.
Infelizmente, o estigma ainda impede que muitas dessas vozes sejam ouvidas, e poucas são as pessoas dispostas a reconhecer o quanto essas pessoas têm a ensinar. É uma verdadeira perda, pois todos ganharíamos com um maior reconhecimento e respeito pela riqueza das suas experiências e capacidades.
Como olha a sociedade para a esquizofrenia?
Os desafios são muitos no que toca à compreensão da esquizofrenia pela sociedade. Existe um medo irracional alimentado por estigmas e preconceitos enraizados, que nos afastam. Este distanciamento deve-se, muitas vezes, à ignorância generalizada da sociedade perante essas questões. As pessoas que sofrem de esquizofrenia são frequentemente vistas como “diferentes” ou “perigosas”.
A falta de conhecimento sobre saúde mental e a maneira como os media, as narrativas populares e até mesmo algumas crenças culturais tratam esta condição contribuem para um entendimento distorcido sobre a mesma. Essa falta de informação cria um espaço para o medo e a desconfiança prosperarem. A partir do momento em que a sociedade se tornar mais consciente da complexidade e realidade da esquizofrenia este distanciamento poderá ser encurtado, abrindo caminho para a aceitação, respeito, compreensão e integração das pessoas que vivem com esta condição.
Em conclusão, torna-se fundamental reconhecermos que pessoas com esquizofrenia não diferem de qualquer outra pessoa em termos de valor humano, dignidade e capacidade de viver uma vida plena. O estigma e o medo que cercam a esquizofrenia apenas agravam o sofrimento dessas pessoas, e o afastamento social, muitas vezes, baseado em ignorância, só aumenta a exclusão. A compreensão e o apoio adequados são essenciais para poderem viver de forma autónoma, funcional e integrados na sociedade.
Quando as pessoas com esquizofrenia recebem o apoio adequado podem alcançar um nível de independência e qualidade de vida significativo. O que mais necessitam é de uma sociedade que as acolha sem julgamentos, que esteja disposta a compreender as suas dificuldades e a valorizar as suas conquistas. É imprescindível que, enquanto sociedade, nos esforcemos para quebrar barreiras, combater o estigma e promover a inclusão, garantindo que todos, independentemente da sua condição mental, possam viver de maneira digna, com oportunidades reais de desenvolvimento e realização pessoal.