Na minha prática profissional, sempre que a pergunta é sobre consumo de drogas, a resposta é muitas vezes a mesma: ‘Drogas? Não, só álcool.’ Talvez já tenha ouvido isto, ou até já o tenha dito a alguém. Mas aqui está a questão — o álcool é sim uma droga. E não uma qualquer, mas uma das substâncias psicoativas mais consumidas no mundo e uma das que mais facilmente provoca dependência. Apesar disso, continua a ser muitas vezes excluído da conversa sobre abuso de substâncias.

A verdade é que com o passar do tempo, o álcool foi-se enraizando nas nossas vidas, simbolizando celebração, amizade e descontração, tornando-se uma presença quase obrigatória em encontros sociais, festas e celebrações. Esta ampla aceitação do álcool, impulsionada pela sua legalidade, fácil acesso e preços reduzidos, criou um ambiente em que o seu consumo não só é socialmente aceite, mas também muitas vezes encorajado, fomentando uma sociedade em que o consumo excessivo e o abuso podem ser facilmente ignorados ou marginalizados.

Este cenário é particularmente preocupante entre grupos vulneráveis, como jovens e adolescentes, cujas taxas de consumo têm mostrado tendências alarmantes. Segundo o inquérito ESPAD (2020), 79% dos estudantes europeus de 15/16 anos já consumiram álcool, muitos desde os 13 anos. De acordo com dados da OMS (2024), o consumo de risco tem aumentado, com maior frequência de intoxicações. Em Portugal, 59% dos jovens entre os 15 e 24 anos consome álcool (SICAD, 2023), 9% dos jovens de 18 anos bebem diariamente e mais de 60% tiveram múltiplas intoxicações no último ano.

Estes dados já são por si só preocupantes, mas entre os jovens destaca-se um padrão de consumo ainda mais alarmante: o binge drinking. Este padrão de consumo caracteriza-se pela ingestão excessiva de álcool num curto intervalo de tempo — especificamente, 5 ou mais bebidas para homens (4 ou mais para mulheres) em cerca de 2 horas. Esses episódios de consumo intenso são seguidos por períodos de ingestão reduzida ou mesmo abstinência, configurando um padrão intermitente e altamente prejudicial. Possivelmente, o leitor já terá vivido uma experiência semelhante em algum momento da sua vida, seja numa passagem de ano, aniversário ou casamento. No entanto, um episódio isolado não caracteriza um padrão de binge drinking. Para que uma pessoa seja considerada binge drinker, esses episódios devem ocorrer, pelo menos, uma vez por mês.

Em Portugal, a prevalência deste padrão na população geral é de 10%, subindo para 22,4% entre jovens dos 15 aos 24 anos (SICAD, 2023). Entre estudantes universitários, as taxas são ainda mais elevadas, situando-se entre os 40% e os 50%. Isto não é surpreendente, dado que o consumo de álcool está intimamente ligado às tradições e festas académicas, sendo percebido como um comportamento recreativo de baixo risco e, muitas vezes, utilizado como um meio de aceitação social.

O binge drinking normalmente atinge o seu pico entre os 18 e 25 anos; no entanto, nos últimos tempos, observou-se uma redução na idade de início deste padrão de consumo, a qual caiu dos 18 para os 15 anos. Os adolescentes passaram então a ser cada vez mais afetados, com 34% dos jovens europeus de 15/16 anos a relatarem terem-se envolvido em episódios de binge drinking no último mês (ESPAD, 2020).

As taxas significativamente elevadas deste padrão durante a adolescência e juventude têm gerado grande preocupação, uma vez que esta é uma fase crítica do desenvolvimento do cérebro humano. Durante este período, ocorrem mudanças estruturais, funcionais e químicas significativas, incluindo dois processos celulares essenciais: a poda sináptica, responsável por eliminar conexões neuronais desnecessárias ou pouco eficientes, e a mielinização, que consiste na formação de uma bainha protetora chamada mielina, ao redor das fibras nervosas, a qual permite uma comunicação entre os neurónios mais rápida e eficaz. Estes processos resultam, respetivamente, numa redução da matéria cinzenta e num aumento da matéria branca, especialmente nos lobos frontais — a região cerebral responsável pelas funções executivas, ou seja, o conjunto de funções cognitivas que regulam os nossos pensamentos, emoções e comportamentos, e que nos permite tomar decisões, planear atividades e controlar os nossos desejos e impulsos. De um modo geral, as alterações cerebrais que ocorrem nesta fase contribuem para o amadurecimento das áreas frontais, o que, por sua vez, leva ao refinamento dessas funções.

Por outro lado, as áreas cerebrais que compõem o circuito da recompensa — responsável pela motivação e pela sensação de prazer em certas experiências — e o sistema límbico, onde se encontra a amígdala, que regula as emoções, já estão totalmente desenvolvidos e apresentam uma ativação aumentada na adolescência. Este desequilíbrio entre os sistemas emocionais on fire e o córtex pré-frontal ainda em amadurecimento traduz-se num controlo reduzido sobre impulsos e desejos, bem como numa maior sensibilidade à recompensa e busca por sensações, razão pela qual os adolescentes são mais propensos a envolverem-se em comportamentos impulsivos e de risco, como o abuso de álcool, incluindo o binge drinking. Além disso, o cérebro — especificamente o córtex pré-frontal — continua a desenvolver-se durante a adolescência até à idade adulta, havendo estudos que indicam um desenvolvimento contínuo até depois dos 30 anos. Isto torna o cérebro dos jovens mais vulnerável a influências externas, como o consumo de álcool, aumentando tanto o risco de adoção desse padrão como a sensibilidade aos seus efeitos adversos. Como consequência, essa vulnerabilidade pode comprometer a maturação saudável do cérebro.

De facto, estudos têm demonstrado que o binge drinking em adolescentes e jovens adultos provoca alterações em regiões cerebrais ainda em desenvolvimento, comprometendo funções essenciais como atenção, memória de trabalho e controlo dos impulsos. No dia-a-dia, essas alterações podem manifestar-se em dificuldades para manter a concentração em tarefas prolongadas — como acompanhar uma aula –, recordar informações importantes no momento certo ou controlar impulsos, como interromper conversas ou agir impulsivamente. Ainda pouco se sabe sobre os efeitos a longo prazo deste padrão de consumo, mas estudos indicam que o uso intenso e prolongado de álcool em jovens pode acelerar a redução da matéria cinzenta em áreas do cérebro ligadas à aprendizagem, memória, motivação e prazer. Na prática, isso pode resultar em maior dificuldade para aprender, esquecimento mais frequente, falta de motivação e menor satisfação com atividades que antes eram gratificantes.

De um modo geral, o envolvimento no binge drinking durante a adolescência e a sua manutenção ao longo do tempo parece ter consequências adversas para o desenvolvimento saudável do cérebro, resultando em alterações que afetam principalmente a capacidade cognitiva, bem como a regulação emocional e comportamental. Mais alarmante, ainda, é o facto deste padrão de consumo na juventude ser considerado um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de dependência de álcool na idade adulta. Ou seja, para além de uma maior probabilidade dos jovens com este padrão desenvolverem dependência de álcool no futuro, o impacto deste consumo no cérebro pode comprometer o funcionamento diário. Muitas das alterações observadas podem evoluir para outros problemas de saúde mental, como a depressão — caracterizada pela falta de motivação e iniciativa e frequentemente associada a dependências — e a ansiedade, seja pelas alterações neurobiológicas diretamente provocadas pelo álcool ou por fatores psicossociais associados ao consumo.

É inegável que o álcool está profundamente enraizado na nossa cultura e muitas vezes, o estranho é não o consumir. É aqui que temos de trabalhar para mudar o cenário. A certa altura, normalizamos tanto o consumo que padrões como este, ou até mesmo mais severos, nos passam despercebidos. A verdade é que a evidência científica tem demonstrado que ignorar os seus riscos pode ter consequências graves, especialmente para os jovens, cujo cérebro ainda está em desenvolvimento. Na minha opinião, reconhecer o binge drinking como um problema de saúde pública junto desta população torna-se essencial para prevenir os seus efeitos a curto e longo prazo. Apesar das evidências sobre o seu impacto negativo, ainda há um longo caminho na educação e promoção de hábitos saudáveis para que o álcool deixe de ser visto como um rito de passagem inofensivo.

O assunto deste artigo é o álcool, mais especificamente este padrão de consumo que tem invadido os jovens. No entanto, poderia também alertar para uma série de comportamentos que podem ter um impacto enorme neste cérebro vulnerável e ainda em desenvolvimento, como o uso excessivo de ecrãs, redes sociais, açúcar, pornografia, assim como outros comportamentos aditivos frequentemente ignorados pela sociedade como potenciais fatores de risco para a saúde mental e cognitiva. Certamente, daria outro artigo… Não digo que a solução seja erradicar ou proibir, mas sim consciencializar. Consciencializar os jovens, os professores, os pais e a família. Consciencializar e educar sobre o funcionamento de um cérebro imaturo e sobre como determinadas práticas, muitas vezes vistas como inofensivas, podem comprometer o seu desenvolvimento, aumentando o risco de complicações — sobretudo de saúde mental — no futuro. Consciencializar sobre a importância de reduzir a frequência destes comportamentos e estimular o desenvolvimento de hábitos mais saudáveis — como o exercício físico, a aprendizagem de coisas novas e, acima de tudo, a construção de relações significativas, através da comunicação com presença e olhar atento. Para que estes sirvam, pelo menos, como fatores protetores contra as decisões impulsivas e, por vezes, imprudentes que inevitavelmente fazem parte da adolescência e juventude.